"Jantar de Família", de Peter Hengl, é um festim desconfortável de tensão psicológica servido a fogo lento - daqueles que deixam o estômago às voltas muito antes de ser derramado qualquer sangue. Nesta parábola sombria sobre corpos, controlo e obsessão, acompanhamos Simi, uma adolescente insegura que passa as férias da Páscoa com a tia nutricionista numa casa onde os bons modos escondem segredos pesados como o silêncio entre talheres. Com uma mise-en-scène minimalista mas eficaz, Hengl cria um crescendo de desconforto que vai do subtil ao insuportável. Cada conversa é um jogo de poder, cada refeição uma ameaça dissimulada. A câmara permanece próxima, claustrofóbica, como se também nós estivéssemos sentados à mesa, incapazes de fugir ao olhar cortante da anfitriã. Entre dietas radicais e doutrinas familiares inquietantes, "Jantar de Família" apresenta-nos uma crítica feroz à cultura da aparência e à tirania da perfeição, dissimulada num thriller de terror psicológico com ecos de "O Chalé" e "Hereditário". Mas atenção: aqui, o pior não é o que está no prato - é o que se esconde atrás dos sorrisos.